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17
Nov
08

Les Bureaux De Dieu

É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.

Até parece verdade – Posted: 10 Nov 2008 04:24 PM CST

Os téoricos de cinema do início do século XX debateram durante muito tempo a propósito da especificidade do cinema, o elemento que faria desta arte algo diferente do teatro, da literatura e da fotografia. Se ele emprestava a importância da palavra oral e as atuações ao primeiro, a narratividade e a palavra escrita do segundo e a impressão de realidade do terceiro, o cinema teria de especial seja a inédita mistura de todos esses elementos, ou então o movimento, a conjunção movimento-tempo, a montagem ou ainda a “fotogenia” (capacidade de atribuir valor aos objetos filmados).

Cem anos depois, a resposta ainda não é tão clara. De qualquer modo, o consenso se concentraria em torno de algo como a colaboração audio-visual. Esse pequeno parêntese serviria para pensar o filme francês Les Bureaux De Dieu e suas intenções enquanto cinema. O projeto é simples: observou-se durante sete anos os escritórios públicos de aconselhamento familiar (destinado geralmente a informar jovens garotas sobre o uso do preservativo, sobre a sexualidade e o aborto), e depois as experiências reais foram ficcionalizadas num roteiro que pretende, justamente, parecer real.

A diretora Claire Simon opera este estranho caminho que vai do real à ficção, para retornar por fim à intenção de verdade. Por que não ter optado diretamente por um documentário? A mesma questão foi levantada a respeito de Entre Les Murs, ficção que se esforçava ao máximo para parecer real. Mas, se esta última estabelecia um painel representativo (todos os conflitos escolares possíves eram reduzidos em uma mesma história), Les Bureaux De Dieu utiliza mesmo a noção de tempo real, de um dia banal como os outros, sem representação sociológica maior.

Apoiando-se na linguagem documental destinada a reproduzir uma impressão de realidade (registro do imprevisto, câmera que hesita livremente entre um rosto e outro, pequenos gaguejos, luz natural…), ele pretende se passar pela verdade. Poderia se questionar a ética deste filme que não se anuncia enquanto a ficção que ele é, que deseja abertamente convencer o espectador; e o faz mesmo apesar de um detalhe importante em jogo: são atrizes famosas que interpretam as trabalhadoras sociais.

Se o cinema contemporâneo já encontrou bem a forma de fazer seus adolescentes não-atores parecerem críveis (Gus Van Sant, Larry Clark, Laurent Cantet e Claire Simon o fazem bem), não se pode esconder a celebridade dessas atrizes que evocam diretamente outros filmes e as figuras públicas que constituem. Elas são o elemento distoante que simboliza o conflito inteiro deste filme: até onde deseja se parecer real? E por que essa necessidade tão grande de persuadir?

Em certa cena do filme, um homem entra no escritório e elogia os cabelos de Nathalie Baye, a mesma atriz famosíssima que aparece todas os dias na televisão fazendo propaganda de shampoo e outros produtos de beleza. O riso imediato do público na sala foi revelador: neste instante a persuasão pára, a ficção se revela, e o espectador não é mais capaz de enxergar na tela uma trabalhadora social; ele vê Nathalie Baye.

O que nos leva de volta às questões iniciais sobre o elemento específico do cinema. Seja ele a montagem, seja ele o trabalho de tempo ou atribuição de valor, Les Bureaux De Dieu não se encaixa em nenhuma das categorias; evitando ao máximo o tempo construído ou o encadeamento de planos. Seu material é o “real”, através da palavra (e como se fala em duas longas horas de depoimentos!) e do ça a été (consciência de que o que foi filmado já constituiu uma verdade, mesmo que se trate da verdade da filmagem).

Este filme francês deve portanto à fotografia (na apreensão do real ao invés da construção do mesmo), ao teatro (a encenação da vida real, o caráter pedagógico do teatro aristotélico), à literatura (a palavra que se encarrega de toda a narrativa), mas muito pouco ao cinema. A imagem é mero suporte de persuasão e de informação, ela tenta se passar despercebida e se inclinar diante da mensagem que porta em si. A imagem se torna acessório do roteiro.

Nesse sentido, traça-se o mesmo caminho comum a muitos documentários (eis uma real aproximação entre os dois), em especial os de engajamento mais rebelde, no sentido de atribuir valor a uma temática, e esperar que esse valor contamine também o filme. É bom falar da educação sexual, por isso é bom o filme que fala de algo bom. E pouco importa a forma com a qual se fala. Um professor uma vez disse, a respeito de um filme brasileiro muito fraco, que ele “pelo menos fala da condição da mulher negra, o que é importante”. Certo, é importante que esse tema seja evocado, mas tal discurso caberia igualmente nas palavras de um político ou num panfleto qualquer, o valor do cinema se encontraria na maneira de representar. Como se repete sempre, a arte (diferentemtente da política e dos panfletos) conjuga necessariamente forma e conteúdo, e não pode existir sem um desses.

Em Les Bureaux De Dieu, a mensagem é a informação positiva e provavelmente bem-intencionada, enquanto a forma é o cinema que nega a si mesmo e pretende de calar, passar despercebido, num canto qualquer. Sob pena, claro, de se passar por verdade. E se for este o caso, se o espectador realmente acreditar nos diálogos e na improvável incursão de atrizes famosas num centro feminista, então melhor ainda, certo?

Enquanto narrativa, este filme tem o mérito de ser informativo. Mas é este também o mérito de qualquer um dos vários pôsteres informativos que decoram as salas do centro familiar. Enquanto cinema, Claire Simon quer para si o mérito da observação, da credibilidade. Seu filme é um elegante e manipulador trabalho de retórica, revestido de belas cores rosas, de um bom propósito e do sorriso de uma dezena de atrizes. E a arte, nessa história toda, torna-se mero veículo ideológico.

Les Bureaux De Dieu (2008)
Filme francês dirigido por Claire Simon.
Com Nathalie Baye, Isabelle Carré, Béatrice Dalle, Anne Alvaro, Nicole Garcia.

13
Mai
08

Saneamento Básico – O Filme

É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.

Como fazer cinema brasileiro

É um problema nos esgotos que vai levar os habitantes de um vilarejo a realizar um filme. Explica-se: na ausência de verbas para obras de saneamento básico, a prefeitura dispõe de uma verba para a realização de um curta-metragem. Encorajados pela prefeita (“façam algo com isso, porque devolver dinheiro pra Brasília é algo que não se faz!”), os moradores se vêem obrigados, da noite para um dia, a produzirem um curta-metragem.

O tema se relaciona ao saneamento: com o título O Monstro do Fosso, eles querem “alertar as pessoas dos problemas ecológicos”. E, lógico, reembolsar a quantia não-gasta na realização para as obras locais. Com um golpe inesperado, o diretor e roteirista Jorge Furtado confronta diversos leigos à realização cinematográfica.

O resultado é a descoberta um tanto atrapalhada de todas as etapas que vão da concepção à distribuição de um filme. A primeira dúvida, absurda, circula em torno do termo “ficção”: o que seria um filme de ficção? Seria o mesmo que ficção científica? Teria que ter monstro? Através de um interessante deslize de lógica, e apoiados na definição do dicionário, os habitantes vão concluir que é obrigatório, sim, ter um monstro.

A elaboração do roteiro é algo imprescindível para a obtenção da verba do governo, e novos problemas aparecem: no momento em que eles escreveram que a personagem, na floresta, “pensa que se tratava apenas de um animal inofensivo”, como filmar esse pensamento? A solução imediata corresponde também à mais flagrante característica de roteiros ruins, no caso, a verbalização. É hilária a cena em que a mocinha anda na floresta e diz em voz alta tudo o que pensa.

Saneamento Básico constitui, desse modo, uma comédia baseada no tosco, no humor de um amadorismo perceptível mesmo pelo público mais leigo. E esse cinema de quintal funciona, de certo modo, como analogia para o cinema profissional, já que cada etapa da produção do curta corresponde exatamente aos processos do longa. O espectador do filme é confrontado tanto com o bom-senso (é subentendido o signficado de “ficção”; é lógico que, se a mocinha fala que vai ao baile de formatura, o público vai querer ver esse baile depois) quanto com os específicos do cinema, como a montagem (e a não-obrigatoriedade de filmar todas as cenas em ordem, como descobrem tardivamente os moradores-cineastas).

Deste modo, Jorge Furtado constrói um manual sintético de toda a produção cinematográfica. Essa comédia trash seria, por fim, um aula de cinema, uma sensibilização do público ao processo que ocorre atrás das câmeras. A metalinguagem se explicitaria (o exagero levando ao humor) e impediria a percepção de qualquer caráter didático desta improvável lição de realização cinematográfica.

Ah, e mesmo uma das noções mais obscuras do cinema é destrinchada: o que é o diretor? Somente no fim do Monstro do Fosso que essa pergunta é feita aos realizadores, que até então tinham realizado relativamente bem (entre muitas brigas, cenas nas quais Furtado inclui debates “éticos” sobre cinema) uma obra coletiva. Um aproveitador se auto-intitula diretor e passa a dirigir os atores no modo mais precário possível, apelando para psicologismos fáceis e para o ego dos atores.

O debate sobre cinema não pára na realização. Furtado é inteligente a ponto de questionar também a destinação de verbas à cultura (“para quê gastar dinheiro com cinema enquanto tem outras obras mais importantes?”, pergunta um senhor de idade) e, acima de tudo, de finalizar com umas (in)diretas ao cinema brasileiro. No Monstro do Fosso, a conclusão hilária mistura a nudez de Camila Pitanga a cenas eróticas de natureza (uma quantidade impressionante de paisagens em formatos de vaginas) e aos dizeres “Salve a Natureza!”. Nada mais irônico que a hipocrisia entre as boas intenções ecológicas e a nudez com fins comerciais.

Saneamento Básico pretende discutir o cinema, e principalmente o cinema brasileiro. Das principais carências de produção aos temas mais recorrentes, passando pela crítica mordaz ao financiamento estatal (que destina verbas para quem quer que seja e, acima de tudo, não cobra o retorno desse investimento), Furtado faz uma síntese humorada e precária do cinema enquanto arte e enquanto indústria, ambos adaptados à situação do cinema nacional.