É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.

Filme de família
Chegando ao seu décimo longa-metragem, o diretor canadense Guy Maddin é facilmente reconhecido por traços recorrentes de sua estética e temática. Sua imagem é quase sempre de um preto-e-branco inspirado do cinema mudo, com direito à granulação típica, aos riscos na película e o trabalho de som particular da época, além de uma montagem fantástica herdada diretamente dos trabalhos de Méliès.
Quanto ao tema, nada mais do que a auto-referência: são todos filmes que falam sobre o cinema e sobre o próprio realizador. My Winnipeg é pelo menos sua terceira autobiografia declarada enquanto tal, sem mencionar os traços biográficos presentes nas demais obras de sua filmografia. O que constatar, então, neste diretor dotado de um universo tão focado, repetitivo e particular?
A primeira conclusão, óbvia, diz respeito a essa reverência ao passado, uma melancolia constante aos temas e estéticas de antigamente. Dos anos contemporâneos, só parece interessar à Maddin a possibilidade de reproduzir mais facilmente um estilo de cinema dos anos 1910 e 1920. Segundo, seria preciso dizer que Maddin se expõe com uma franqueza praticamente infantil, sem receios.
Sua auto-exposição é contrária àquela de Woody Allen, por exemplo: enquanto este se punha sempre em cena, mas em situações inusitadas de modo a satirizar a si próprio, Maddin não se inclui nas imagens, mas põe atores para interpretarem todos os membros da família, dos pais ao cachorro, e narra os fatos vividos com uma seriedade solene, sem interesse paródico. My Winnipeg não apresenta nenhum traço novo neste empreendimento padrão, mas aprofunda as escolhas e as torna ainda mais explícitas.
O resultado apresenta, no campo estético, uma granulação ainda maior, uma montagem mais fragmentada e veloz, mais riscos, mais imagens desfocadas. O conteúdo narrativo se centra no auto-documentário, no qual Maddin conta sua vida em voz off durante toda a duração de seu filme, mostrando em tela a rua onde morava, os lugares que frequentava, e recheando a apresentação de comentários pitorescos sobre a sua amada cidade de origem, Winnipeg.
O efeito de tal combinação é, no mínimo, curioso. Se o diretor usa procedimentos de um cinema primário, ele não parece de modo algum interessado nas características narrativas do mesmo. Enquanto desfila na tela uma textura de imagem que chama facilmente atenção para si mesma, o discurso é dos mais tradicionais, com voz off explicativa seguida da imagem que confirmaria estas declarações. Assim, Maddin apresenta tal estádio frequentado por seu pai, enquanto as imagens do estádio aparecem. Seguem outras informações documentais, como a data de construção do tal estádio, quantas pessoas ele acolhe, como foi gerado pelo governo local etc.
Ou seja, se por um lado a inspiração provém de um cinema fantástico e mágico (o diretor é normalmente batizado “o mágico de Winnipeg”), por outro sua apresentação da cidade canadense é pedagógica, rígida, turística. Aprendemos os melhores pontos para visitar, além de escutarmos os pontos de vista calorosos do realizador contra os políticos que geram a cidade. Tudo inspira muito amor, muita seriedade e uma homenagem apaixonada.
É uma pena que procedimentos interessantes como a reconstituição de cenas vividas pelo diretor (fielmente representando as ações relatadas em um diário) seja rapidamente abandonada por esta apresentação geral e panorâmica da cidade, enquanto o Guy-personagem sonha dentro de um trem. Contrariamente à Méliès, que fazia um cinema centrado no prazer e na ilusão do público, Maddin é preocupado com os (próprios) fatos, e acaba construindo uma espécie de “filme de família”, do tipo que só deve realmente ganhar significado aos olhos dos próximos do diretor e dos habitantes de Winnipeg.
My Winnipeg (2007)
Filme canadense dirigido Guy Maddin.
Com Darcy Fehr, Ann Savage, Amy Stewart, Brendan Cade.

