30
Mar
09

Linha De Passe

É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.

Cinema  ”mostrativo”. Posted: 23 Mar 2009 02:36 AM PDT

Existe uma contradição dominante na crítica contemporânea que consiste em criticar os filmes claramente engajados por não permitirem ao espectador de formular suas próprias opiniões em relação ao tema abordado, ao mesmo tempo em que se critica o filme muito imparcial por não tomar uma posição em relação ao seu objeto.

O fato é que é difícil encontrar o tom da representação política no cinema, talvez pela concepção primária que se tem desta arte: ela teria como objetivo criticar o mundo? Apenas representá-lo? Ela deveria ser naturalista (ou seja, passar uma impressão de realidade), realista (crítica em relação à realidade) ou ficcional; o mais objetiva possível ou completamente subjetiva, construidora ou desconstruidora?

Talvez exista, no entanto, um meio-termo saudável entre as posturas radicalmente denunciadoras de Ken Loach, Michel Moore e Costa-Gravas ou das abordagens pretensamente neutras de Laurent Cantet ou de Walter Salles e Daniela Thomas com esse Linha de Passe. Talvez exista algo entre o cinema demonstrativo (de uma tese) e este cinema “mostrativo” que toma o naturalismo como uma finalidade em si.

Eis que Salles e Thomas fazem um filme admirável em sua execução: o trabalho de câmera é sempre muito naturalista, as atuações (novo trabalho de preparação de elencos de Fátima Toledo) são ótimas, os diálogos parecem verossímeis, as ações são dotadas de grande credibilidade. Em uma palavra, os diretores mostram que sabem criar uma impressão de realidade.

A dúvida se encontraria longe do inegável domínio técnico de ambos, e sim na razão de existir dessas imagens. Por que mostrar essa família com seus problemas, sua vidas quotidianas? Por que transformar em filme um dia-a-dia tão semelhante ao de uma vida paulistana comum? Linha de Passe não se mostra particularmente crítico em relação ao material abordado; ele também não denuncia, não apóia um lado ou outro, não demonstra interesse por uma história, uma idéia ou uma visão de mundo.

O maior mérito que este trabalho quer para si é o da neutralidade e da credibilidade, o que – como já se viu – ele possui. Resta se perguntar se isso basta, se a excelência da forma constitui a si própria um conteúdo; ou então se esta execução só faz aproximar o cinema de seu aspecto ontológico mais primário, no caso, seu potencial fotográfico de apreensão do mundo. Ou seja, há valor ou não na reprodução fotográfica da realidade? O cinema deve ser uma reprodução do olhar humano, uma extensão deste ou ainda uma perversão, uma alteração? O que merece ser visto, e com quais olhos?

Linha de Passe pode levantar todas essas questões ao fazer de suas duas horas de narração um trabalho admiravelmente frio, perfeitamente maquínico em seu desenvolvimento monótono, sua ausência de conflitos, sua montagem paralela e acadêmica ao extremo. Para os diretores, este filme tem cara de um portfólio destinado a provar sua capacidade enquanto profissionais. Para o público, fica a questão de atribuir ou não valor a uma obra que pretende simplesmente se debruçar na janela e admirar o mundo lá fora.


4 Respostas para “Linha De Passe”


  1. 1 Leo
    Abril 3, 2009 às 11:48 am

    Finalmente uma (boa) atualização!!

    Sou suspeito para falar, pois gostei muito do Linha de Passe, um dos meu preferidos do ano passado. Não acho que os filmes tenham de levantar uma bandeira a todo tempo. As vezes o retrato de uma realidade, por si só já merece ser filmado. E se este retrato vier tomado de grandes atuações, bons diálogos e técnicas altamente profissionais, melhor ainda!!

    Acho uma pena que filmes como “Se Eu Fosse Você 2″ façam a melhor bilheteria da retomada, enquanto verdadeiras obras-primas como este Linha de Passe, sejam completamente ignorados pelo grande público. Pode perguntar. A maioria nem sabe que o “diretor de Central do Brasil” lançou um novo trabalho no ano passado…

    Abraço!

  2. 2 paulo schettino
    Abril 30, 2009 às 11:39 pm

    O nosso trabalho se realiza quando o texto, no caso a análise de Linha De Passe escrito por Bruno Carmelo, incita à produção de um outro texto, agora o do Leo. Relendo-os não foi possível evitar a lembrança de um terceiro texto, resultando em uma prática que usualmente chamanos de exercício de intertextualidade. Veio-nos à mente, provocada pelo Bruno e pelo Leo, a evocação do longo texto produzido por Honoré de Balzac ao fazer e publicar a análise crítica do romance A Cartuxa de Parma de Sthendal, na primeira metade do século XIX. Balzac na introdução disserta sobre a existência de três possíveis tipos de textos literários. O primeiro seria uma literatura contemplativa em que predominavam as imagens criadas pelas metáforas do autor. E, ao fazê-las belas, inspiravam o deleite aos seus leitores. Um segundo grupo de textos chamou-o de Literatura de Idéias em que o autor, obviamente, usava o texto para transmitir e suscitar exercícios de pensamento em seus leitores. Por fim, abre espaço para um terceiro tipo, eivado de hibridismo dos anteriores, que chamou de ecletismo.
    Parece-nos que de novo o cinema se aproxima das Literaturas, e que poderíamos sugerir a existencia de cinemas, ou diferentes modalidades de produção de filmes. Desse modo, haveria a possibilidade e razão de se fazer filmes belos como Linha De Passe e besteiról, ou puro entretenimento, como Se eu fosse você – parte 2.

  3. Junho 19, 2009 às 7:54 pm

    Caros:

    É um prazer ler esses maravilhosos textos, comentar não me arrisco,mas espero aprender muito por aqui.
    abs

  4. 4 Fernando Pereira
    Agosto 27, 2009 às 10:16 pm

    “Linha de Passe” Traz Futebol e Dramas do Cotidiano

    O longa dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008, conta a história de Cleuza (Sandra Corveloni) uma empregada doméstica grávida, apesar de já madura, e de seus quatro filhos. Moradores da periferia de São Paulo, os garotos Dario (Vinícius de Oliveira), Dinho (José Geraldo Rodrigues), Denis (João Baldasserini) e o caçula Reginaldo (Kaique de Jesus Santos) buscam diferentes formas para driblar as dificuldades no jogo da vida.
    Dario, que acaba de completar 18 anos, enxerga no futebol uma forma de ascensão social, porém o fato de ter atingido a maior idade limita suas chances no esporte. Denis, o mais velho, é motoboy, busca ganhar dinheiro para pagar a pensão do filho; Dinho um evangélico que encontrou na religião a porta de saída da criminalidade e Reginaldo, que anseia conhecer o pai, formam o mosaico humano do filme.
    Salles volta aos bons tempos, como na época de “Central do Brasil” e foca sua câmera na dura poesia concreta do asfalto, com um humanismo comovente que fisga o espectador do inicio ao fim. O enredo não poderia ser mais verdadeiro, pois não sugere soluções mágicas e repentinas, assim como na vida real.
    Donos de um estilo único de fazer cinema, Walter Salles e Daniela Thomas conquistaram, com Linha de Passe, o merecido sucesso de crítica e público.Destaque para a interpretação de Sandra Corveloni, premiada como melhor atriz no festival de Cannes em 2008.


Deixe uma resposta