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A Era do Rádio

É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.

Memória afetiva – Posted: 28 Nov 2008 01:43 AM CST

Não é novidade o fato que Woody Allen se inclua em seus próprios filmes, muitas vezes como personagem principal. Em A Era do Rádio, curiosamente, ele tem um papel mais importante do que nunca, e isto sem aparecer uma vez sequer na imagem. Neste filme, Allen é o narrador que conta sua própria história, e nos mostra as imagens como se virasse as páginas de um álbum: esta é minha mãe, este é meu pai, este é meu bairro…

Um garoto interpreta o jovem Allen (Seth Green, imagem perfeita do garoto nerd “deslocado”) e, mesmo que o bairro apresentado não corresponda ao de sua infância, e que as figuras familiares não se inspirem nas reais, pouco importa: A Era do Rádio é acima de tudo a biografia de uma época (os Estados Unidos dos anos 40), representada pela sua relação com o rádio.

Interessante esse elemento em torno do qual gira toda a narrativa. Em pleno século XXI seria fácil pensar que seu papel corresponde hoje em dia ao da televisão, mas há algo de diferente: o rádio, nesta narrativa, ainda constitui um elemento de apreciação coletiva, uma experiência para unir a família mais do que separá-la. Além disso, uma música no rádio preenche uma casa inteira, enquanto o som da televisão no cômodo ao lado necessita das imagens para completar seu sentido…

Não que o rádio não sugira, ele mesmo, uma imagem. Interessante forma de tratar a ilusão a partir do som: os personagens são apaixonados pelas rádio-novelas, pelos programas infantis de ação (e qual decepção ao constatar que o herói é interpretado por um pequeno homem calvo!), sem falar no humor irônico do diretor que inclui mesmo programas radiofônicos de ventrílocos.

Mas o rádio (e a música; o jazz tão precioso a Allen) não constituem o tema. Como diz o título, Radio Days aborda os dias nos quais se insere a paixão pelo rádio, dias esses de pauperização durante a Segunda Guerra Mundial (1943). Os americanos estão representados pelos valores que mudam (a influência da religião judia e o próprio garoto que amadurece), pela espera do homem ideal (um bela Dianne Wiest no papel da tia solteira), pela procura do sucesso (Mia Farrow como garota-sem-talento-que-sonha-ser-famosa); enfim, pelos sonhos que não vêm, dentre os quais se inclui o término da guerra.

A canção aparece, neste contexto, como melhor opção para escapar da realidade. São sonhos de paraísos exóticos através de South American Way de Carmen Miranda, homens românticos com If You Are But A Dream de Frank Sinatra… um filme sonhador por excelêcia, nostálgico sem ser lacrimoso (o humor irônico no lugar do sentimentalismo), reverencial dos bairros modestos e das periferias de Nova Iorque.

Talvez o mais interessante seja mesmo a forma escolhida por Allen para articular a narrativa. Seu filme se desenvolve com uma fluidez particular à memória afetiva, que não respeita cronologias nem estabelece ordem de importância entre os fatos. Assim, pulamos de história em história, para depois voltarmos para uma inicial; e vermos lado a lado as memórias da guerra, a primeira visão de uma mulher nua, o dia em que se compra tal brinquedo do super-herói favorito… a montagem, longe de privilegiar uma coesão tradicional, se dedica a essa coerência interna muito particular à conversa informal, à rememoração espontânea. Assistir A Era do Rádio se assemelha à deliciosa experiência de bater um papo com Woody Allen num bar, e ouví-lo falar da História, da música, do amor; essas coisas.

Radio Days (1987)
Filme norte-americano dirigido por Woody Allen.
Com Mia Farrow, Dianne Wiest, Diane Keaton, Seth Green.


2 Respostas para “A Era do Rádio”


  1. 1 paulo braz clemencio schettino
    Março 31, 2009 às 2:24 am

    Comentar o filme A ERA DO RÁDIO/Radio days, de Woody Allen, e o comentário sobre o filme feito pelo crítico Bruno Carmelo, tão longe de sua realização, comprova a sua perenidade. Ninguém da área de COMUNICAÇÂO e CULTURA terá o direito de o desconhecer. O Rádio, como meio de comunicação de massa, extrapola barreiras geográficas e escolaridades. Se, no dizer de Marshal McLuhan, existiram duas galáxias assemelhadas à rede de pescaria de receptores, sem dúvida nenhuma foi o Rádio – Galáxia de Marconi – que sobrepujou a velha Galáxia de Gutenberg, existente desde os meados do século XV. Com sua malha fina pescava também os analfabetos e dispensava suportes materiais para a sua difusão. O Rádio, entrando em todos os lares do mundo inteiro em que havia receptores, tornou-se o sucedâneo popular da velha imprensa a ponto de ser reconhecida como a IMPRENSA FALADA, restaurando a oralidade do discurso interpessoal.
    E Woody Allen, em tom memorialista nos reconta a febre que tomava a família no entorno dessa nova lareira. Entretenimento, informação, e cultura fizeram a cabeça dos radiouvintes, principalmente no intervalo entre as duas grandes guerras mundiais do século passado.
    O Rádio se transforma e se adapta à nova era da Televisão – agora, a comunicação verbal se acopla à Imagem.
    Porém, o que verdadeiramente importa é tomar consciência de que o Rádio construiu o imaginário das pessoas reunidas ao seu redor. E sobrevive, ainda hoje, como um forte meio de comunicação que junta à informação dos fatos cotidianos um carater novo de prestador de serviços.
    Importante para o espectador do filme é reconhecer a similaridade dos efeitos do Rádio sobre as pessoas, lá nos Estados Unidos, com o que se observou no Brasil em uma clara importação cultural.
    Ver e rever A ERA DO RÁDIO, de Woody Allen, é o que nos incita o texto de Bruno Carmelo.

  2. 2 Fernando Pereira
    Outubro 15, 2009 às 3:55 pm

    Woody Allen Resgata Época de Ouro do Rádio
    O filme A Era do Rádio/Radio Days, traz retrato autobiográfico do diretor

    Lançado em 1987, o filme A Era do Rádio, do diretor nova-iorquino Woody Allen, retrata as décadas de trinta e quarenta, “era de ouro” do rádio norte-americano. Allen constrói a linha narrativa de seu filme através das memórias de seu protagonista um garoto de dez anos que vive com a família no subúrbio de Nova Iorque.
    Pertencente a uma família judia de rígidos costumes, o menino Joe Needleman relata as transformações pelas quais os Estados Unidos passaram naquele período. Interessante notar o papel de eletrodoméstico utilitário de agregação familiar que o rádio possui nos lares norte-americanos, função que posteriormente seria ocupada pela televisão.
    O menino narra a ascensão gradativa e a queda do veículo através de personagens como Sally White, vivida pela atriz Mia Farrow, que sonha ser estrela do rádio. Fatos como a lendária transmissão da adaptação radiofônica realizada por Orson Welles do romance A Guerra dos Mundos, de H G Wells, e a entrada dos Estados Unidos na segunda guerra mundial são retratados na obra de Woody Allen.
    A primorosa trilha sonora é outro destaque da trama do filme pontuada por canções de Glenn Miller, Carmen Miranda, dentre outras, que ajudam a pintar o quadro da big Apple da década de quarenta, descrita por Joe Needleman. O filme que é um retrato autobiográfico da infância de Allen, um delicioso diário que acabou por gerar um de seus melhores filmes, uma experiência agradável aos olhos e ouvidos.

    POR FERNANDO PEREIRA


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