É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.
Ensaio Sobre A Cegueira - Posted: 11 Oct 2008 03:30 AM CDT
A mecânica do caos
Um homem se descobre subitamente cego, em breve um segundo e um terceiro. Em apenas alguns minutos de filmes, declara-se a “cegueira branca”: sem razões aparentes, a humanidade inteira começa a perder a visão. Seguimos dois personagens centrais: o médico contaminado pela cegueira e sua esposa, curiosamente não afetada.
Imediatamente, o médico é transportado para um imóvel abandonado com outros cegos. Quem decretou essa quarentena? Em que ciscunstâncias se tomou essa decisão? Como se reagiu a essa descoberta? Só saberemos muito mais tarde, quando um personagem de olhos vendados (um desses senhores dotados de uma “sabedoria típica da idade”) vem nos contar em linhas gerais o que se passa no mundo lá fora.
Isso calha bem com o foco que o diretor Fernando Meirelles costuma atribuir às suas histórias. Ao escolher de nos mostrar unicamente o que enxerga nossa protagonista, ele se isenta de reproduzir a realidade fora desse confinamento artificial, dessa nova sociedade criada às pressas. Em Domésticas o diretor já realizava a curiosa proeza de eliminar os patrões do universo das empregadas (ora, como mostrar um sem o outro?), em Cidade de Deus ele transformava a favela num microcosmo quase independente, uma sociedade destacada do resto do país.
Em Ensaio Sobre A Cegueira, a brutalidade da exposição das ações (os personagens agem sem que vejamos suas motivações, seja por parte do governo, dos cegos incrivelmente hostis e dos militares cínicos que os vigiam). Agindo “por impulso”, essas pessoas parecem de fato animalescas e cruéis, e seus comportamentos aparecem como única alternativa possível, como caminho óbvio.
Talvez isso decorra do fato que Meirelles parece acreditar que a essência de uma obra literária (no caso, o livro homônimo de José Saramago) reside nas ações de sua história, e não na visão de mundo que essa história transmite. O comprometimento (a “fidelidade”), neste caso, se encontra na transcrição imagética das principais passagens do livro.
Com a predominância das ações sobre as motivações, compromete-se a coesão dessa história que passa a funcionar numa mecânica de causa e conseqüência: é lógico que cegos sejam encarcerados e privados de comida; é lógico que se estupre mulheres numa nova sociedade desprovida de leis.
As escolhas estéticas são igualmente unilaterais. Não se trabalha com metáforas: se a cegueira é “branca”, o filme inteiro é excessivamente branco; se tratamos de distúrbios visuais, a imagem se desfoca e a profundidade de campo se reduz.
O filme melhora consideravelmente no seu terço final, quando, liberados do cárcere, nossos personagens vão encontrar o mundo lá fora (e o espectador também). É a primeira vez em que nos livramos das amarras do olhar da protagonista assim como da obrigação de retratar a crueldade: uma vez que já compreendemos do que são capazes estes homens, resta contemplar as conseqüências de seus atos. As câmeras aéreas e a grande profundidade de campo, até então inexistentes, garantem a seriedade da situação e impressionam com imagens de um mar de destruição até perder de vista.
Com um retorno simbólico ao lar (a protagonista leva todos que a acompanham para a casa onde morava), a história se permite pela primeira vez o retrato do ordinário, já que todas imagens desde o início retratavam o caos e as imagens de exceção. Seguem os prazeres simples de se tomar um bom banho (bela cena de três mulheres juntas declarando admiração uma pela outra), mesmo que Meirelles explicite suas intenções logo em seguida ao criar um jantar em que se brinda “à nossa família humana”.
Meirelles nunca foi um cineasta sutil, tampouco um realizador dotado de uma visão sociológica de seus temas. Pragmático, ele prefere apostar na manipulação da textura das imagens e na transcrição das passagens do livro de origem. Esta mise-en-scène de ações e belezas maquínicas constitui a maior fraqueza de uma obra que, afinal, pretendia analisar o ser humano.
Blindness (2008)
Filme norte-americano dirigido por Fernando Meirelles.
Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal, Dany Glover, Alice Braga.