É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.
Bons tempos, aqueles… Posted: 20 Jul 2008 07:42 AM CDT
É de um saudosismo assumido este filme do diretor Ettore Scola: a partir do título melancólico, ele constrói uma homenagem às grandes paixões de sua vida, especialmente às memórias da guerra, aos amores de juventude e ao próprio cinema.
A batalha em questão é a Segunda Guerra Mundial, que vai unir três soldados italianos e garantir a união eterna entre esses amigos tão diferentes: um paspalhão, que luta sem ideologia; um utópico pacifista e um militante de ultra-esquerda, disposto a abandonar tudo por seus ideais.
A vida e o roteiro vão se encaminhar, então, de aproximá-los e separá-los, sempre com a dor de quem filma uma história um tanto pessoal. A narrativa se desenrola durante mais de trinta anos, período no qual eles terão tempo de encontrar todos a mesma garota e se apaixonaram por ela, um por vez, despertando o ciúme do outro mas garantindo ao mesmo tempo, através dessa figura unificadora, o reencontro improvável dos três.
Essa ciranda amorosa nos remete à Jules e Jim do Truffaut, e a referência não é gratuita: assim como este filme, Scola reverencia direta ou indiretamente um grande número de filmes que marcaram sua juventude de cinéfilo. Sua própria história se desenvolve como uma Noite Americana, na qual acompanhamos com prazer as melhores histórias dos filmes neo-realistas (como De Sica teria feito o garoto de Ladrões de Bicicleta chorar), com direito à uma ousada reconstituição de época das filmagens de A Doce Vida, com os próprios Fellini e Mastroinanni atuando nos papéis de si mesmos.
O olhar, portanto, é abertamente do ponto de vista de um fã. Toda reencenação é glorificada e sentimentalista a ponto de beirar o kitsch. Mesmo os amores do trio masculino são representados por luzes teatrais que iluminam os personagens enquanto o resto do mundo permanece no escuro e uma narração revela seus pensamentos.
As próprias elipses, elementos fundamentais na história, são construídas de modo autoral e subjetivo: cinco anos se passam enquanto um personagem sai de sua casa e chama sua esposa (e a repetição desta cena reforça ao mesmo a idéia de cansaço, de tédio matrimonial e chama atenção para as mudanças físicas – maquiagem carregada – e relacionais entre eles), enquanto outro passeia num pátio de carros velhos e encontra sua esposa dentro de um deles, circundada de um halo dourado. Só neste momento descobrimos então que ela havia morrido devido a um acidente com seu veículo.
Tamanho uso de recursos explícitos (metalingüísticos), além da música rebuscada e mesmo os créditos amarelos dão a impressão de um filme datado, que envelhece bastante com o tempo. Ora, talvez seja justamente essa a idéia e o mérito do filme: marcar tão bem o sua época, que é ela mesma referente a uma outra época. Nós Que Nos Amávamos Tanto é uma espécie de testamento cultural de Scola, um diário filmado no qual ele revela sem pudor tudo que lhe foi importante, na intenção de partilhar com o espectador essas imagens pelas quais ele tem tanto carinho.
Esse trecho me faz lembrar de alguma forma o filme ” Um amor para toda a vida”. Talvez por serem da mesma forma, 3 apaixonados por uma só mulher e haver uma morte em questão.
À propósito, indico o filme.. Muito bom!
Bruno Carmelo, como sempre, foi feliz na escolha do filme do Ettore Scola para proceder sua análise. A filmografia do diretor italiano é extensa, porém, se de um lado o seu “Feios, sujos e malvados”/Brutti, Sporchi e Cattivi (1976) lavou a honra de nós brasileiros ao mostrar que favela e miséria não é nossa exclusividade, por outro, é no “Nós que nos amávamos tanto”/C’eravamo tanti amati (1974) que dá um banho, literalmente, na construção de Roteiro e Montagem. São três histórias que duram trinta anos e que correm em paralelo – por isso a montagem foi importante:a vida dos amigos, a do Cinema Italiano, e a história da própria Itália em sua segunda reconstrução a partir do pós-guerra de 1945.E, as três histórias fluem, alternadamente.
Um magnífico documentário a inaugurar o que mais tarde chamaríamos de Docudrama, e que podemos observar, hoje, até mesmo nos telejornais com a técnica de “simulação” da narrativa dos fatos da realidade. E o elenco está coeso. Percebe-se uma entrega total dos atores nas mãos do diretor que, como diz Carmelo, trabalha com a memória.
O filme é, no nosso entender, uma crônica memorialista a cobrir trinta anos de lembranças. E que dizer do título, também coletivo? O plural dos amantes engloba escritor e personagens dispostos a rever a caminhada desde o tempo em que sonhavam apesar da tragédia da guerra.