É bom que se diga que o texto é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.
A pobreza é bela e colorida
Algo soa estranho na imagem de uma favela multicolorida, na qual todos os habitantes se vestem de vermelho, laranja e amarelo. Uma favela em que Marisa Orth representa uma líder comunitária amiga dos moradores; uma favela em que a música rap versa ora sobre a dura vida dos moradores, ora sobre o amor profundo.
Algo soa estranho, enfim, na proposta de Maré, Nossa História de Amor de unir musical e favela. Não que isso não seja possível: filmes profundamente engajados já se apoiaram no gênero musical (penso em Cabaret; ver crítica neste blog) assim como a música e a poesia na favela já foram mostradas com sucesso recentemente, como em Antônia, de Tata Amaral (crítica no blog).
O musical de Lúcia Murat, no entanto, não critica a estrutura do gênero como faz Cabaret, nem busca a crítica social como Antônia. O intuito deste filme, nas palavras da própria diretora, é mostrar que os habitantes da favela “também têm talento”. Sim, os pobres também dançam, numa escolinha de dança contemporânea que abriga o amor impossível entre Analídia e Jonatha, cujas famílias pertencem a gangues diferentes da favela.
A referência clara à Romeu e Julieta é verbalizada no filme, mas não outra ainda mais direta, no caso, o filme West Side Story. Este clássico dos anos 60 já era uma adaptação da peça de Shakespeare, e é diretamente desta fonte que Murat bebe. No entanto, enquanto este se apoiava numa imagem romântica das gangues (que se batiam com facas, lutavam pela honra), Murat insere essa idéia bruscamente na realidade complicada das favelas.
O resultado é de um maniqueísmo assustador. Há nas favelas os bons e os maus; enquanto os primeiros são violentos e carregam armas, os outros dançam e pregam o amor. Murat deixa clara sua visão simplista de que todos que se envolvem com a violência são culpados e têm que ser punidos. Não há questionamento sobre a origem dessa marginalidade. Toda pessoa teria a escolha de seguir um bom caminho, e se não o faz é porque não quer.
Essa sociologia televisiva (comum em particular aos folhetins da Globo, que empresta ao filme praticamente todo seu elenco negro) gera um resultado desconfortável. A realidade entra em conflito com a ficção, e esta última parece perverter a primeira numa espécie de fetichismo patriarcal, como se a favela fosse observada de um ponto de vista exterior (zona sul do Rio?), com a piedade de quem olha animais numa jaula do zoológico.
Fica a impressão de uma obra feita para o olhar estrangeiro (penso na participação de Maré, Nossa História de Amor no festival de Berlim, e qual recepção ele teria tido por lá), pela intenção promocional de um microcosmo como algo de exótico, particular aos países tropicais e subdesenvolvidos.
Mesmo a história original de Romeu e Julieta é pobremente adaptada. Na conclusão, as mortes obrigatórias da tragédia impõem o assassinato de Jonatha e Analídia, e esta última se debate longamente em câmera lenta, enquanto papéis prateados chovem sobre ela. Não me lembro de ter visto recentemente outro filme tão alienado, que se aproprie sem o mínimo compromisso ético de uma situação extremamente complexa.
0 Respostas para “Maré, Nossa História de Amor”