O que será, o que será?
O primeiro fator de destaque neste filme é a ambição do projeto: um diretor reconhecido, William Wyler, que acaba de ganhar onze Oscars por Ben-Hur, dirige duas atrizes de sucesso, Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, numa trama com tema pouco aceito no ano de 1961: a homossexualidade feminina. Principalmente porque, nesta época, a rígida censura do Código Hayes ainda estava em vigor nos Estados Unidos, e proibia que se abordasse este tema.
A solução encontrada pelo diretor (e pelos dramaturgos da peça teatral de origem) foi fazer um filme inteiramente dedicado ao conflito pessoal de sua protagonista lésbica, sem que uma vez sequer se pronuncie as palavras “lesbianismo”, “homossexualidade”. Como na canção de Chico Buarque, que canta o sexo sem dizer seu nome, The Children’s Hour torna ainda mais forte seu discurso pela obviedade do elemento ocultado.
Assim, nossa protagonista sofre com seu amor pela colega de trabalho, heterossexual, e diz, sofrendo, “eu te amo sim, da maneira como eles dizem”. Por sua vez, os detratores da pequena cidade conservadora e religiosa denunciam uma relação “anormal”. O elemento forte desta história se concentra na visão da sociedade sobre o sujeito, uma vez que o amor unilateral sequer tem esperanças de se concretizar.
Espertamente, coloca-se as duas como professoras do primário, profissão valorizada na época, e com influência óbvia na educação (moral) das crianças. Cabe a estas últimas suspeitar que suas professoras são “íntimas demais”, e espalhar o rumor para suas famílias. Esta é a mesma geração de crianças que se tornará extremamente homofóbica e republicana mais tarde, e Wyler não hesita em exagerar e tornar um verdadeiro calvário a vida das duas amigas, que logo perdem a profissão, os amigos, e se vêem obrigadas a ficar em casa, com medo do olhar dos outros.
Neste filme-denúncia, o desenvolvimento retrata o modo crítico como o diretor e o roteirista enxergam a sociedade da época (nada de imparcialidade aqui, o discurso está sempre ao lado das protagonistas), assim como a conclusão fechará a tese do filme e atacará direto os valores morais dos espectadores. Termina-se de maneira forte, impiedosa, extremamente pessimista. Priva-se mesmo a personagem heterossexual de felicidade, uma vez que seu nome fica marcado pelo caso.
É interessante ver que tal filme seja realizado por um diretor claramente pragmático e objetivo: nada de metáforas poéticas ou de insinuações lúdicas típicas das representações da sexualidade feminina: tudo é visto com uma frieza implacável, como uma notícia de jornal sobre a triste história de duas mulheres. O último plano parece dizer “e que isto sirva de lição”. Militantismo feroz e acusatório pró-homossexualidade: eis algo nada anódino nos Estados Unidos do início dos anos 1960.
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PS: Seria possível estabelecer este filme com outra obra recente, Le Ruban Blanc (2009), no sentido em que o trabalho de Haneke também tenta entender, de maneira psicossocial, a sociedade atual pela relação às gerações que a formaram. As crianças são a chave de ambos para projetar para um futuro as consequências das ações dos adultos, levando o espectador a projetar suas próprias atitudes nos comportamentos das próximas gerações. Acima de tudo, é raro e precioso ver duas análises morais que reconhecem o importante peso da evolução história da sociedade, sem analisar os valores isoladamente.
por: Bruno Carmelo
The Children’s Hour (1961)
Filme norte-americano dirigido por William Wyler.
Com Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner.




