É bom que se diga que o texto abaixo – e os demais que seguem – é de autoria de BRUNO CARMELO, enviado de Paris onde estuda Cinema e especializa-se em Análise Fílmica e Crítica Cinematográfica. O original encontra-se publicado no seu sítio eletrônico NUVEM PRETA para o qual remetemos o leitor interessado em conhecer seus outros textos. PAULO SCHETTINO.
Sob medida. Posted: 24 Jun 2009 05:32 AM PDT

Talvez antes de entrar no filme propriamente dito, seria interessante pensar em como ele consegue reunir a maioria das características que críticos e intelectuais pedem do cinema atual (lembrando que isso corresponde aos pedidos atuais, porque os valores do cinema sempre mudam conforme a época em que se encontra):
- A narrativa apresenta uma parte de documentário, mas não sobre um tema qualquer, e sim sobre os bailes e canções populares das regiões rurais em Portugal. Para os documentários, a crítica moderna pede que tratem das pessoas mais pobres, que relatem a cultura, que registrem com um olhar antropológico os gestos e tradições. Isso porque o cinema geralmente é feito por pessoas de classe média (no mínimo), urbanas e sem qualquer contato com o campo, de modo que relatar cantos populares e a “simplicidade do povo” é sempre um valor politicamente correto muito apreciado.
- Existe igualmente uma parte de ficção, mas não sobre um tema qualquer, e sim sobre o próprio cinema. A metalinguagem é para a ficção um dos temas mais nobres, mais respeitáveis, porque toda referência ao próprio cinema parece implicar uma reflexão sobre a arte – o que, convenhamos, nem sempre é o caso. Aqui, o roteiro inclui um fime-dentro-do-filme, com um diretor em crise que se questiona sobre o futuro da sua obra. Nada muito novo, mas serve como excelente desculpa para todos aqueles que julgarem a trama pós-adolescente muito fraquinha: afinal, não se vê a obra, mas sim o film-dentro-do-filme. E fazer um filme ruim dentro de um outro melhor é algo de muito bom tom.
- Domina a noção de vocação e de inspiração, isso porque Miguel Gomes filmou cenas de bailes populares sem saber como iria montar, sem ter uma história para contar. Sua estrutura caótica, sua noção de improviso tão cara ao teatro e de tão difícil prática no cinema lhe confere um rótulo de liberdade, de alguém longe de implicações estéticas (a narrativa que se cria na montagem, o som se dissocia da imagem e recusa a referencialidade) e comerciais (seu filme é feito com pouco dinheiro, de maneira independente, em Super 16, com duração de 150 minutos). Ainda por cima, o diretor vem da crítica de cinema, outro caminho muito apreciado pelos cinéfilos saudosos da Nouvelle Vague francesa.
Sobre o filme, pode-se dizer então que possui uma heterogeneidade marcante, com parte fictícias e documentais se encostando sem realmente acrescentar nada uma à outra (poderia se conceber, com este mesmo material, duas obras diferentes); mas que é cheio de momentos interessantes, de golpes de inovação (taí outro crítério muito apreciado), de imagens belas (de uma beleza “em si”, que não necessariamente acrescenta algo à narrativa, como a cena do incêndio), de uma confusão entre verdade e mentira, ficção e documentário que parece muito bem-vinda. Acima de tudo, Aquele Querido Mês de Agosto tem cara de um grande rescunho de alguém com muitas idéias, rascunho cuja fragmentação parece refletir a personalidade de seu próprio “criador”. E como se faz diante de manuscritos de gênios da pintura e da literatura, a crítica grita “gênio”. Inspiração e originalidade estão na moda, já a coerência do discurso, não.
Aquele Querido Mês de Agosto (2009)
Filme português dirigido por Miguel Gomes.
Com Sônia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Paulo Moleiro.